2009/10/21

Mensagem do Professor de Língua Portuguesa

Caros Alunos da turma 7A,

Uma vez que não tivemos oportunidade de nos encontrarmos para vos dar a ficha das figuras de estilo, não queria deixar de vos dar todo o material necessário para o vosso estudo.

Assim, deixo-vos apenas as dez figuras de estilo relevantes para o teste (as que estavam a branco, na ficha que lemos na aula).

Passamos então à matéria:

Figuras de Estilo

Objectivo: conhecer as figuras de estilo utilizadas em língua e literatura portuguesa.


NÍVEL FÓNICO (= dos sons)
Dentro do nível fónico temos de considerar recursos estilísticos que não são propriamente figuras de estilo, como é o caso da rima e da onomatopeia.

Rima — Processo que consiste na correspondência de sons em lugares determinados dos versos. A rima é, na realidade, uma espécie de assonância:
Falam por mim os plátanos da rua:
Deixam cair as folhas amarelas,
E ficam hirtos na friagem nua
Como mastros sem velas.
Miguel Torga, Diário II

Onomatopeia — consiste na imitação da voz (de pessoa ou animal) ou do ruído de um objecto. A onomatopeia pode ser usada, muito intencionalmente, como recurso estilístico e pode aparecer associada a figuras de estilo:
Sino de Belém, pêlos que inda vêm!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.
Sino da Paixão, pêlos que lá vão!
Sino da Paixão bate bão-bão-bão.
Manuel Bandeira, O Ritmo Dissoluto

Troc... troc... troc... troc...
Ligeirinhos, ligeirinhos.
Troc... troc... troc... troc...
Vão cantando os tamanquinhos...
"Galgar com tudo por cima de tudo, hup-lá
Hé-lá! Hê-hô! Ho-o-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!"
Álvaro de Campos

NÍVEL SINTÁCTICO (= da sintaxe)

Enumeração — Consiste na apresentação sucessiva de vários elementos. O último, ou o primeiro, pode ser uma palavra que os sintetiza a todos.
Professor, médico, comerciante, todos se vendiam.
Fernando Namora, A Noite e a Madrugada

Flores, perfumes de um jardim aberto
Canto de aves, murmúrios de água fria.
Cabral do Nascimento

Gradação — Consiste na apresentação de vários elementos segundo uma ordem crescente ou decrescente.
É a guerra aquela tempestade terrestre que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e (...) sorve os reinos e monarquias inteiras.
Padre António Vieira, Sermões

"Os vales aspiram a ser outeiros, e os outeiros a ser montes, e os montes a ser Olimpos
e a exceder as nuvens."
Padre António Vieira

Hipérbato ou inversão — Consiste na alteração da ordem directa das palavras na frase.
Como pretexto, da educação da menina, ou de alimentos, já nos tinha importunado...
Escrúpulos não tem ela.
Eça de Queirós, Os Maias
(Ela não tem escrúpulos —> Escrúpulos não tem ela.)

Laura traz hoje uma saia que lhe fica muito bem. São elegantes estas saias.
Mário Dionísio, O Dia Cinzento e Outros Contos
(Estas saias são elegantes —> São elegantes estas saias.)

Nas pernas me fiava eu.
Aquilino Ribeiro

(NÍVEL SEMÂNTICO (= dos sentidos)

Comparação — Consiste em estabelecer uma relação de semelhança através de uma palavra ou expressão comparativa ou de verbos a ela equivalentes (parecer, lembrar, sugerir, etc.).
A noite descia,
Como um cortinado,
Sobre a erva fria
Do campo orvalhado.
Carlos Queirós, Desaparecido

E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.
Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde

O silêncio pesava como chumbo.
As árvores pareciam velas desfraldadas ao vento.
Os olhos de ambos reluziam como pedras preciosas.
(...) de face mais escura que a noite e coração mais escuro que a face"
A rua [...] parece um formigueiro agitado
Érico Veríssimo

Metáfora — É uma espécie de comparação abreviada, pois deu-se o desaparecimento da palavra ou expressão comparativa. Existe assim um certo efeito de surpresa, porque a palavra passa a ter, no contexto, um significado que vai mais além do que o que lhe é habitual.
A vazante atinge o seu máximo. A casa é uma concha abandonada pela maré.
Luísa Dacosta, A-ver-o-mar

Fios de sol escorriam de uma azinheira perto da estrada.
Vergílio Ferreira, Aparição

De novo o rio começara a vazar. Todas as veias da selva levavam as suas águas denegridas ao caudal barrento, que ia emagrecendo dia a dia.
Ferreira de Castro, A Selva

Personificação — Consiste em atribuir características próprias de pessoas, a animais, coisas ou ideias.
O vento soluça e geme (...)
António Nobre, Só

O mar, farto do vento sul que o esguedelha e irrita, espoja-se raivoso.
José Loureiro Botas, Frente ao Mar

A Ilha era deserta e o mar com medo
da própria solidão já te sonhava.
Ia em vento chamar-te para longe
E longamente, em espuma, te aguardava.
Carlos de Oliveira



Hipérbole — Consiste no emprego de termos exagerados, para realçar determinada realidade.
Está um tempo torvo, gelado. Chove a potes.
Vitorino Nemésio, Corsário das Ilhas

Santa Maria, até se me puseram os cabelos em pé ao eco do nosso brado, ali no meio do ermo!
Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas

Nota: A hipérbole é frequente na linguagem falada, em expressões como: "porem-se os cabelos em pé", "não se ver um palmo à frente do nariz", "estar um sol de rachar", etc.

Paradoxo — Consiste em aplicar a uma mesma realidade termos inconciliáveis, destacando assim a sua complexidade (relação de contraditórios).
Foste tu que partiste,
— Meu amargo prazer, doce tormento!
Carlos Queirós, Desaparecido

(Estamos em presença de dois paradoxos: amargo prazer - um prazer não é, em princípio, amargo; doce tormento - um tormento não
será doce.)

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís de Camões

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